sábado, 2 de janeiro de 2021

Celebrar a Vida


Neste período de ausência, muita coisa aconteceu. 

Dei-me conta da minha mortalidade. De como tudo pode acabar num segundo.

Nos primeiros dias de internamento, o maridão foi incentivado, pelos da equipa médica do serviço onde estive, a despedir-se de mim enquanto havia tempo.

O impacto que estas pessoas tiveram na personalidade do maridão, só o percebi quando vim para casa e ele partilhou comigo toda a sua vivência. Emagreceu. Ganhou olheiras. Insónias. Muitas lágrimas e até depressão. 

Enquanto eu estava numa de "deixa-te estar que estás bem", deitada na enfermaria, a receber a minha morfina, o maridão não conseguia saber de mim pelo telefone. Teve mesmo de se pôr ao caminho, a pé, por várias vezes, e fazer uma "espera" à entrada da enfermaria, para conseguir saber se eu estava a melhorar ou não. 

Fiquei imensamente triste por ele. Sei que se fosse ao contrário eu teria feito a mesma coisa. Mas... proclamar-se um luto enquanto ainda há vida, isso faz-se a alguém?... 

E mesmo quando voltei para casa, o maridão não dormia. A cada volta que eu dava na cama ele acendia a luz para ver se estava bem. Se ele fechava os olhos e dormitava, tinha pesadelos com a minha perda.

Esteve vários dias debaixo de pânico. Assim que eu pegava numa panela ou me abaixava para chegar a uma gaveta, ele quase que tinha uma síncope, de terror que o aneurisma rompesse de novo.

Tivemos muitas conversas sobre aqueles dias. Para compormos o quadro todo, relatámos dia a dia o que vivenciámos e o que sentimos. Chorámos.

Aos poucos fomos conseguindo afastar o medo, e dar lugar à vida que (ainda) nos assiste.

De dia para dia, fui vendo o rosto do meu amado a largar a preocupação desmesurada, o sorriso a voltar-se-lhe, o sono a recompor-se.

Aos poucos a liberdade de movimentos para mim. O meu humor a voltar. A minha gargalhada a iluminar a vida dele.

Ontem dançámos na nossa sala de estar. Ao som de um fado do Carlos do Carmo, celebrámos a vida.

E que bom que é estar viva contigo, amor!❤

Cumprimentos, e que também possam celebrar a vida!

Ariana

2 comentários:

maria silvestre disse...

Que bom, querida Ariana!! Desejo-lhe tudo de bom para este ano e que o pesadelo não volte mais às vossas vidas. Beijinho

bolota disse...

Ora aí está uma excelente resolução: "celebrar a vida"!. Espero que continuem os dois a celebrá-la em conjunto por muitos e muitos anos. Felicidades e bem vinda de volta. Bjs
Filomena