"O que será hoje o almoço?" - pensava ele, enquanto subia a encosta suave, e ainda verdejante, do campus.
"Desde que ela conseguiu este novo emprego, nunca mais houve necessidade de andarmos com os tupperwares atrás, carregados com o almoço, lanches, e em alguns casos (dela) até jantares. Que canseira era aquela vida para ela."
"E o tempo para nós, para estarmos juntos? Já nem tenho memória de quando foi a última vez que as nossas horas de almoço estiveram sincronizadas..."
"Deixa-me ligar-lhe, para dizer o tempo que demoro a chegar."
O toque da chamada era um toque normal. Linha desimpedida. Mas não era normal ela não atender.
"Estranho. Deve estar a ouvir música alta, aquela rapariga não muda mesmo. Um dia vai ficar mouca que nem uma porta, e depois eu que a ature, eheh!"
Desistiu de tentar ligar-lhe. Normalmente, ela acabava por ver a chamada não atendida e devolver o contacto, por isso, nada de preocupante. Desde que levasse o telemóvel na mão, em modo vibratório, funcionava sempre.
Finalmente, o telemóvel vibrou.
"Olha quem é ela!, a minha "sardanisca" preferida! Já viu que lhe tentei ligar."
- Bom dia minha querida! Então, que fazes tu?
- Boa tarde, estou a falar com o marido da Ariana? Daqui fala a Susana, sou colega de trabalho da sua esposa, peço desculpa por estar a ligar-lhe, assim, do telemóvel da sua esposa, mas, infelizmente, tenho uma notícia muito triste para lhe dar...
Ele sentiu um baque forte no seu coração. Parou de andar, que as pernas se lhe transformaram em trambolhos de pedra. As mãos encheram-se de água, da transpiração que sentiu, todas as suas células pendentes nas palavras "uma notícia muito triste para lhe dar".
- Uma notícia muito triste?... Mas, o que aconteceu? Onde está ela agora?
- Ela esteve bem, aqui no trabalho, a fazer as suas tarefas, tudo normal. Só que quando chegou a hora de almoço.... ela teve qualquer coisa que a fez desmaiar, vomitar e ter uma convulsão... Já chamamos o INEM, fique descansado, que ela já vai a caminho do hospital. E tenho a certeza que ela vai recuperar, a sua esposa é uma pessoa muito "zen" aqui no trabalho, sempre calma, se há pessoa para ultrapassar isto, é ela, tenho a certeza!
- Para que hospital a levaram, por favor? E eles não disseram o que podia ter sido?
- Sim, levaram-na para o São José. Disseram que parecia algum acidente vascular cerebral, pelo que observaram... Mordedura de língua, convulsão, vómitos, a dor de cabeça intensa... Eles falaram em aneurisma, mas não sei mais nada.
- Vou já para lá! Obrigado, Susana. Depois passo aí para levar o telemóvel dela e as coisas dela que tenham ficado aí.
- Sim, está cá a mala dela, o telemóvel e a bata.
- Ok, obrigado por me contactarem. Depois do hospital, vou aí. Obrigado, e até já.
A chamada acabou.
Ele ficou por uns momentos a aguardar que o sangue lhe voltasse a correr nas veias. A sua querida teve um... avc?... aneurisma?...
"Mas, como?... O que é que fizémos de mal? O que é que a trouxe a isto?... Deveria eu ter sido mais rápido em estimulá-la a sair do velho emprego? Será que foi a ansiedade que aquilo lhe dava que lhe causou isto?..."
As lágrimas soltavam-se a par e passo pelo rosto abaixo.
"E, como é que ela está? E, como é que vai ficar depois disto??? Neste meio tempo, pode até já ter morrido, e eu sem estar ao seu lado! Meu Deus! Dá-me força para me aguentar, quando a vir. Ó meu Deus, preciso de forças ATÉ para lá chegar, que a distância ainda é grande! Vou como?... Um autocarro!, vou já por aqui!"
Fez sinal ao motorista, que encostou, para ele entrar.
E lá seguiu viagem, imóvel como uma múmia, mas no seu caso, enfaixado ainda vivo, paralisado pela realidade da vida...
"A qualquer momento, qualquer coisa pode mudar o nosso mundo! O que será que vou encontrar?..."
--- continua ---
6 comentários:
Ainda bem que já consegue escrever e que tem paciência para o fazer. As melhoras, um dia de cada vez...
Olá!
Faço votos de melhoras e que tudo corra pelo melhor!
Beijinhos
Olá Ariana,
Coragem!...
Força!...
Já acendi uma velinha (para recuperar...) por si!...
Grande beijinho
Teresa C.
Ola Ariana
as melhoras e que tudo corra bem.... Lucia
Marisa,
Obrigada,sim,foi um dia de cada vez. Quando comecei a escrever já tinha passado cerca de 1 mês do sucedido. Felizmente, o aneurisma não me atacou o pensamento, nem a fala,nem a escrita! Ainda estava na cama do hospital, já a minha mente "escrevia" estas narrativas!
Beijinhos, e obrigada!
Mãos de Fada, Teresa C. e Lucia,
Obrigada pelo vosso carinho. Bjs
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