Só tenho a apontar os telefonemas da patroa, de cada vez que renovo a minha baixa médica, que têm um tom de desinteresse chocante:
"Ah, vai continuar de baixa? Olhe, ainda bem, para nós ia ser muito complicado se a Ariana voltasse já, como sabe, não teríamos como suportar mais um ordenado. Assim é uma grande ajuda que nos dá, se puder continuar de baixa, por nós, é o melhor. É bom para si, e é bom para nós. Enquanto puder ser, continue, sim?..."
Foi assim o último telefonema... Eu ainda lhe disse:
"Dra, claro que compreendo a situação aí. Mas a Dra percebe que não estou de baixa por causa da clínica, certo?... As coisas por aqui estão mesmo más, os meus exames acusam coisas chatas de resolver.. Por isso é que continuo de baixa, não é por dar jeito à clínica!"
Mas dali só veio um "Sim, claro, mas já que se encontra nessa situação, só podemos aproveitá-la como positiva para nós, porque nos tira um problema de cima dos ombros..."
🤐 Sem comentários. Nem tentam esconder que não me vêem como uma pessoa. Desliguei o telefone a sentir-me lixo descartável.
Desde então, a vontade de mudar a vida apoderou-se de mim com uma insistência que nem sei explicar.
Tenho enviado currículos para tudo o que encontro. Sem esquisitices. O objectivo é encontrar algo que me permita dar o passo de pedir licença sem vencimento, e depois, se a coisa se consolidar, demito-me.
Estou a aguardar por uma resposta neste momento. Um novo emprego, talvez.
Mas, às vezes, é muito difícil pensar objectivamente, sem sentimentos à mistura...
Ainda temos compromissos financeiros aos quais não podemos faltar. A renda desta casa onde vivemos há ano e meio não é das mais altas, mas é relativamente alta. Pagamos mais por esta casa do que pagava pelos dois empréstimos habitação que tínhamos antes... Se eu ficar sem emprego, como é que nos poderemos manter aqui?... Porque, de facto, não queremos outra casa, não queremos sair de onde estamos...
Mas depois, penso na possibilidade de deixar de me sentir rebaixada e humilhada no trabalho, e a oportunidade parece-me muito mais atraente.
As pessoas dizem que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Mas... E se for possível, mesmo assim, ficar com um pássaro na mão?...
Por mim, deixava o actual trabalho de vez.
Mas não posso deixar de pensar na nossa vida conjunta, no nosso futuro.
E isso... assusta-me como um raio! E se escolho mal?...
Cumprimentos,
Ariana
12 comentários:
Olá,
Fico sempre apreensiva com estes posts e fico a pensar no futuro da minha filha, ela tem uma doença neuromuscular desde os 16, tem agora 18, tenho esperança que estabilize e fique melhor quando entrar no mundo de trabalho, mas estes últimos 2 anos não tem sido fácil e honestamente olhando para trás não sei se estivesse a trabalhar se conseguiria manter o emprego com tantas recaídas que teve, aliás tenho a certeza que não conseguiria trabalhar de forma regular.
Até porque é uma doença silenciosa que lhe produz um cansaço inexplicável não sei até que ponto qualquer entidade patronal não lhe irá dificultar a vida, por ter duvidas sobre a sua real condição.
Deve pensar bem na sua vida e fazer a melhor escolha, mas os problemas que tem não desaparecem e infelizmente deverá ser complicado arranjar um novo emprego e necessitar de baixa com regularidade, da minha experiencia poucos patrões aturam isso, muito à custa de empregados que metem baixa sem necessidade.
Olá Ariana
Por algumas razões iguais e outras diferentes mudei completamente o meu rumo. Foi um buraco difícil de sair mas saí!
Na realidade reinventei toda a minha vida profissional e sou mais "empregável" agora do que era. Entrei numa área que jurei toda vida pés juntos que nunca faria. Acabei a gostar...
É o que sonhei fazer? Não, mas vai permitindo concretizar alguns sonhos diferentes.
Fiquei com atrasos nas contas a até vivi 6 meses sem frigorífico porque mal tinha dinheiro para comer.
Passamos mal, gastava mais na ração dos gatos do que no nosso comer.
Não é uma decisão fácil, e depois de tomada exige uma força imensa que nem sei de onde veio.
É uma decisão a dois mas acima de tudo é uma decisão individual.
Só a Ariana sabe como se sente de saúde, e como se sente mentalmente capaz ou não, de enfrentar a mudança, ou enfrentar essas condições de trabalho que tanto desagradam.
Desta altura fiquei com uma certeza, a saúde piora quando se acorda a pensar no castigo que vai ser o dia
Há provérbios que me vinha à cabeça muitas vezes:
Quem muda deus ajuda
Fecha-se uma porta abre-se uma janela
e outros...
Tinha dias que isto era repetido à exaustão como um mantra
E cá estou empregável, com tudo pago, dias mais felizes no trabalho, dias que não me apetece nadinha...já não estou nas funções que me "salvaram" mas estou na mesma área.
Uma coisa fiquei a saber: Eu sou capaz!
Olá
Deixei o comentário 2 e não conseguia deixar de pensar numa frase:
Não te contentes com menos do que mereces
Não ofereço a minha opinião, porque em última análise, é a Ariana que terá de viver com a decisão.
Mas parece-me uma pessoa suficientemente ponderada para saber o que é melhor para si e para a sua família.
Votos de melhoras.
Um forte e apertado abraço.
Bom dia Teresa,
Obrigada pelas suas palavras sábias 🙂.
Sim, eu também estou apreensiva em arriscar tudo e depois ficar sem nada. Pensar bem na minha vida é praticamente tudo o que tenho feito nestes meses de baixa... Entendo o risco, mas anseio a mudança. Só não sinto a coragem para a fazer. Ainda.
Beijinhos,
Ariana
"saúde piora quando se acorda a pensar no castigo que vai ser o dia" - Mas é que é mesmo verdade. Só por pensar em voltar para o meu trabalho, fico num estado de nervos deplorável. E nas noites antes de ir não consigo dormir, ou se durmo, só tenho pesadelos...
Gostava tanto de conseguir fazer este salto. Admiro a sua coragem! Não tem aí um "restinho" dela que me possa dar?...😉
Beijinhos,
Ariana
Obrigada Cristina,
Pois por ser ponderada é que a questão se mostra mais difícil de concretizar...
O que é melhor para nós? A resposta é mesmo deixar este trabalho. O maridão comenta que quando venho do trabalho, parece que venho com um rastilho de pólvora sempre pronto a ser acendido... Basta-me até só falar do trabalho, que me sobe à voz um tom de ira e desespero incompreensível... Temos de pensar o futuro com extra cautela.🙂
Beijinhos,
Ariana
Olá Arina!
Antes de tudo espero que a tua saúde melhore.
Quanto ao trabalho, sei que falar de fora é fácil, mas é fundamental tentares arranjar algo novo, estás num local que não te dao valor (és só mais um recurso) e nós para além de funcionários somos pessoas! Sei que a altura nao é das melhores, mas tenta! E para alem disso, acredita! Tu vais conseguir ficar melhor e arranjar um novo emprego também. Esta semana estive a ler um artigo que tinha eta frase que me deixou a pensar "nós não ganhamos o que merecemos mas sim o que lutamos". Luta por um sitio melhor! E vais conseguir.
Força! E continua com o blog.
Olá J.
É verdade que sinto que sou apenas mais um recurso para as minhas patroas, e isso está a mexer comigo emocionalmente. Talvez esteja a perder a minha capacidade de compartimentar, com o avançar da idade...
Lutar é o que mais tenho feito, mas parece sempre que nunca chegamos lá 🤷♀️
Quanto à oportunidade que eu aguardava... nunca chegou. Nem uma sms, nada. Senti que nem hipótese de saber o que viram de mal, e de poder melhorar, me concederam. Fiz 1 semana à experiência, totalmente iludida pelas palavras de "Eu ligo-lhe. Não faça outros planos até eu lhe ligar."
Caramba.
Porque é que as pessoas têm de ser todas tão más???
Estou cansada disto, a sério. Se pudesse largar tudo, largava mesmo.
Alguns conselhos por aí que me possam ajudar?...
As minhas ideias já esgotaram😔
Beijinhos,
Ariana
Olá Ariana,
Espero que a sua saúde melhore e que os tempos futuros se tornem positivos na sua evolução médica :) muita força deste lado.
Fiquei um pouco em choque com as respostas da sua chefe, estamos a falar de saúde, não de um mero posto de emprego na empresa.
Sobre as novas perspectivas, eu acho sempre que nunca perdemos nada em arriscar, mas compreendo a apreensão.
beijinho
Olá Ariana. É realmente uma situação complicada. A nossa saúde está primeiro mas por outro lado temos de ter meios de sobrevivência. Já fez bem as contas se não está a gastar o que ganha na saúde? Física e mental? Um acordo com a atual empresa seria possível? Beijinhos
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